Chagas em Panamá

Guia clínico de atenção ao paciente com doença de Chagas baseado nos protocolos vigentes para diagnóstico, tratamento e acompanhamento.

Protocolo vigenteMinistério da Saúde do Panamá (MINSA), com a Caixa de Seguro Social (CSS) e a OPS/OMS
Revisão2024 (2.ª edición; Resolución n.º 0971 de 20-05-2024, Gaceta Oficial n.º 30130-A de 01-10-2024)

Diagnóstico

Resumo

A quem estudar

  • Clínica: febre de mais de 5 dias, com ou sem mialgia, artralgia, astenia, diarreia, dor abdominal ou torácica, palpitações ou edema (pág. 21).
  • Clínica: exantema, adenopatias, hepatoesplenomegalia, cardiopatia aguda, icterícia ou sinal de Romaña; em crianças os sinais são mais difíceis de reconhecer (pág. 21).
  • Epidemiologia: residência ou visita a área com triatomíneos, transfusão ou transplante recente, alimento contaminado, mãe infectada ou risco ocupacional (pág. 21).

Fase aguda

  • Parasitologia: o exame direto de sangue periférico com T. cruzi confirma a infecção (pág. 21).
  • Sorologia: IgM positiva com clínica e epidemiologia compatíveis, ou IgG com elevação de ≥3 títulos ou soroconversão entre amostras separadas ≥21 dias (pág. 21).
  • Caso confirmado: parasitemia direta ou dois testes sorológicos de princípios diferentes (ELISA, IFI, HAI, Western blot); se discordam, PCR ou outro teste molecular (pág. 22).

Fase crônica

  • Confirmação: IgG anti-T. cruzi por pelo menos duas técnicas de princípios diferentes, de preferência com titulação (1.ª ed., pág. 31).
  • Um ELISA negativo com alta suspeita clínico-epidemiológica não descarta: obriga a continuar com o segundo teste (1.ª ed., pág. 31).
  • Clínica: miocardiopatia, lesões de condução, parada cardíaca ou morte súbita e insuficiência cardíaca congestiva; o megaesôfago e o megacólon são raros no Panamá (pág. 22).

Recém-nascido

  • Caso congênito confirmado: parasitemia direta ou PCR, ou dois testes sorológicos de princípios diferentes, em criança até 1 ano filha de mãe soropositiva (pág. 22).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Algoritmo de laboratório e controle de qualidade

A triagem é feita no nível local ou regional e todos os positivos são confirmados no Laboratório Central de Referência em Saúde Pública (LCRSP) do ICGES; em caso de discordância, colhe-se nova amostra. 5 % dos resultados negativos são enviados ao LCRSP para controle de qualidade (1.ª ed., pág. 32; 2.ª ed., pág. 41).

PCR

Está indicada na fase aguda com métodos diretos negativos, na doença de Chagas congênita com clínica compatível e mãe soropositiva (permite definir o caso antes dos 6 meses), em imunossuprimidos e no seguimento após o tratamento. No Panamá mostrou baixa sensibilidade na fase crônica, por isso não substitui a sorologia nesse cenário (1.ª ed., pág. 33; 2.ª ed., págs. 39-40).

Tratamento

Resumo

Quem tratar

Indicações segundo as recomendações da OPS/OMS 2018 (pág. 44):

  • Crianças com infecção crônica e meninas ou mulheres em idade fértil com infecção crônica (recomendação forte) (pág. 44).
  • Casos de infecção aguda ou congênita (recomendação forte) (pág. 44).
  • Adultos com infecção crônica sem dano orgânico específico (condicional a favor) (pág. 44).
  • Adultos com infecção crônica e dano orgânico específico (condicional, certeza moderada) (pág. 44).

Esquemas e doses

  • Dois tripanocidas orais: benznidazol (primeira escolha) e nifurtimox (segunda escolha, reservado para cepas resistentes ou quando o benznidazol não está disponível) (págs. 45-48).
  • O esquema padrão dura 60 dias (págs. 45-48).

Onde tratar

  • Casos leves e formas indeterminadas: manejo ambulatorial na atenção primária, por médico geral que conheça o medicamento e a doença (pág. 44).
  • São encaminhados a cardiopatia aguda grave, hemorragia digestiva e intolerância ou reações adversas (pág. 44).
  • O contato com o paciente deve ser pelo menos semanal no primeiro mês e depois mensal ou conforme a evolução (pág. 44).

Antes de iniciar o tratamento

  • Exames prévios: hemograma com plaquetas, ureia e creatinina, transaminases, bilirrubina, LDH, fosfatase alcalina e exame geral de urina (pág. 45).
  • Exames prévios: radiografia de tórax e eletrocardiograma (pág. 45).

Contraindicações e precauções

  • Ambos os fármacos: hipersensibilidade, gravidez, distúrbios neurológicos, hepáticos ou renais graves e condições graves associadas à doença (pág. 46).
  • Nifurtimox, além disso: deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (pág. 48).
  • Precauções: supervisão rigorosa em insuficiência renal, hepática ou hematológica e vigilância do hemograma, sobretudo leucócitos (pág. 46).
  • Com benznidazol: evitar álcool pelo efeito tipo dissulfiram e usar contracepção eficaz em mulheres em idade fértil (pág. 46).
  • Com nifurtimox: hidróxido de alumínio para reduzir a irritação gastrointestinal e redução da dose se houver perda de peso (pág. 48).

Acesso

  • Nenhum dos dois tem registro sanitário no Panamá (pág. 53).
  • São comprados pelo Fundo Estratégico da OPS e a Direção de Farmácias e Drogas autoriza seu uso por exceção (pág. 44).
  • São de uso exclusivo do MINSA: não são vendidos em farmácias privadas (pág. 44).
  • Se a terapia falhar com um medicamento, pode-se tentar o outro, revisando antes a literatura sobre resistência cruzada (pág. 53).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Doses por grupo

  • Benznidazol: recém-nascidos 10 mg/kg/dia a cada 12 h 60 dias, com meia dose inicial e dose completa às 72 h se tolerado (pág. 45).
  • Benznidazol: até 12 anos 5-10 mg/kg/dia em 2 doses; maiores de 12 anos e adultos 5-7 mg/kg/dia em 2 doses, também com HIV (pág. 45).
  • Benznidazol: a dose máxima é de 300 mg/dia (pág. 45).
  • Nifurtimox: comprimidos de 120 mg, 3 tomadas ao dia durante 60 dias, máximo 700 mg/24 h (pág. 48).
  • Nifurtimox: recém-nascidos 10-15 mg/kg/dia a cada 12 h e até 12 anos 10-15 mg/kg/dia a cada 8 h (pág. 48).
  • Nifurtimox: maiores de 12 anos e adultos 8-10 mg/kg/dia a cada 8 h; em HIV, 8-10 mg/kg/dia em 3 doses durante 90 dias (pág. 48).

Ajuste por peso (>60 kg)

Com mais de 60 kg é preciso calcular a dose total e prolongar o tratamento além dos 60 dias para não ultrapassar 300 mg/dia. Exemplo da guia: 70 kg a 5 mg/kg/dia exigiriam 350 mg/dia, então aplica-se uma regra de três (300 mg × 60 dias = 18.000 mg; 350 mg × 60 dias = 21.000 mg) e o tratamento é estendido até completar 70 dias (pág. 45).

Acompanhamento

Resumo

Controle durante o tratamento

  • Hemograma completo uma vez por semana (a cada 15 dias em áreas de difícil acesso) para vigiar leucopenia e trombocitopenia (pág. 49).
  • Transaminases, bilirrubina, LDH, fosfatase alcalina, creatinina e nitrogênio de ureia a cada 15 dias (pág. 49).
  • Em cada consulta verificam-se o peso, os sinais, os sintomas e a intolerância, e ajusta-se a dose ao peso atual (pág. 49).
  • O diagnóstico presuntivo deve ser confirmado ou descartado em no máximo 15 dias (pág. 49).

Seguimento sorológico

  • Sorologia ao final do tratamento, a cada 6 meses durante o primeiro ano e depois anualmente até 5 anos (pág. 49).
  • O seguimento é encerrado com dois exames sucessivos não reagentes (pág. 49).

Critério de cura

  • A cura é a negativação sorológica; não existem critérios clínicos exatos (pág. 49).
  • Negativação esperada: cerca de 1 ano na congênita e 3-5 anos na aguda tratada (pág. 49).
  • Negativação esperada: 5-10 anos nos crônicos recentes e mais de 20 anos nas infecções antigas (pág. 49).
  • Na fase crônica espera-se uma diminuição progressiva dos títulos como sinal de negativação futura (pág. 49).

Avaliação cardíaca

  • Eletrocardiograma se o paciente apresentar sintomas cardíacos; se alterado, encaminha-se ao especialista (pág. 49).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Suspensão do tratamento

Deve ser suspenso por intolerância ao medicamento quando ocorre (pág. 49):

  • Náuseas e vômitos graves após redução da dose.
  • Alteração nervosa periférica que não melhora ao reduzir a dose.
  • Depressão da medula óssea.
  • Dermatite grave.

Gravidez e Chagas congênito

Resumo

Triagem da gestante

  • Indicação: sorologia a toda gestante de área endêmica, junto com a triagem do primeiro trimestre (pág. 27).
  • Indicação: também a toda mulher em idade fértil de zona endêmica ou com antecedente de ter vivido nela (pág. 27).
  • Repetição: resultado negativo prévio com permanência superior a 1 mês em zona com presença vetorial (pág. 27).
  • Repetição: sorologia positiva prévia em nova gravidez, mesmo que a paciente tenha recebido tratamento (pág. 27).
  • Registro: o resultado, positivo ou negativo, é anotado no cartão pré-natal (pág. 27).

Manejo da gestante soropositiva

  • Conduta: avaliar o estágio, realizar eletrocardiograma, manter o pré-natal, fazer ultrassom fetal e encaminhar a risco obstétrico (pág. 27).
  • Tratamento: benznidazol e nifurtimox são contraindicados na gravidez (pág. 27).

Amamentação

  • Tratamento durante a amamentação: permitido, porque passa para o leite menos quantidade que a dose de um recém-nascido (pág. 27).
  • Amamentação: não há risco de transmitir o parasita pelo leite materno; deve ser recomendada e apoiada sem restrições (pág. 28).

Recém-nascido

  • Curva de IgG: no 1.º mês os títulos são iguais aos da mãe e no 2.º mês caem 2-3 títulos (pág. 28).
  • A maioria das crianças é soronegativa no 6.º mês e faz-se um último exame aos 9 meses (pág. 28).
  • Se a positividade persistir a partir do 9.º mês, é um caso de Chagas congênito e deve ser tratado (pág. 28).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Manifestações da doença de Chagas congênita

O recém-nascido pode apresentar febre, hepatoesplenomegalia, problemas cardíacos, anemia ou icterícia, prematuridade, baixo peso ao nascer, miocardite ou meningoencefalite, ou ser assintomático; a ausência de sintomas ao nascer não descarta a infecção (pág. 28).

Pediatria

Resumo

Quem tratar

  • As crianças com infecção crônica são tratadas independentemente da forma clínica (recomendação forte da OPS/OMS 2018 adotada pela guia) (pág. 44).

Recém-nascido

  • Tratamento precoce do recém-nascido infectado: benznidazol ou nifurtimox durante 60 dias, sob supervisão médica (pág. 28).
  • A cura é confirmada com sorologia ao final do tratamento e ao ano (pág. 28).

Prognóstico

  • A infecção aguda tem pior prognóstico em menores de 2 anos (pág. 23).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Doses pediátricas por idade

  • Benznidazol: recém-nascidos 10 mg/kg/dia a cada 12 h, com meia dose inicial e dose completa às 72 h se tolerado (pág. 45).
  • Benznidazol: até 12 anos 5-10 mg/kg/dia em 2 doses; maiores de 12 anos 5-7 mg/kg/dia (pág. 45).
  • Nifurtimox: recém-nascidos 10-15 mg/kg/dia a cada 12 h e até 12 anos 10-15 mg/kg/dia a cada 8 h (pág. 48).
  • Ambos os esquemas duram 60 dias (págs. 45 e 48).

Reações adversas

Resumo

Frequência e apresentação

  • A intolerância é pouco frequente em crianças e na fase aguda e mais frequente em adultos crônicos (pág. 46).
  • As reações mais comuns são a dermopatia e a neuropatia (pág. 46).
  • Distúrbios gastrointestinais (náuseas, vômitos, anorexia, diarreia) em cerca de 10 % dos casos; exigem tratamento clínico sintomático (pág. 46).

Reações graves

  • Neuropatia periférica em <1 %, desde a 5.ª semana: interromper até a melhora (pág. 46).
  • Com doses altas pode restar parestesia ou lesão irreversível; não melhora trocando para nifurtimox (pág. 46).
  • Dermatite entre o 5.º e o 10.º dia: leve (<20 %) continuar; moderada (<5 %) interrupção temporária com anti-histamínicos ou corticoides (pág. 47).
  • Dermatite acentuada (<1 %): interromper e hospitalizar (pág. 47).
  • O nifurtimox produz menos efeitos dermatológicos (pág. 47).
  • Hipoplasia medular (<1 %) entre o dia 20 e 30, com trombocitopenia <50.000 plaquetas/mm³: suspender sem readministrar e transferir (pág. 47).
  • Vigiar leucopenia, granulocitopenia, neutropenia e agranulocitose (pág. 47).
  • Ageusia (perda do paladar): interromper o tratamento (pág. 47).
  • Dor de garganta e febre: advertir o paciente a suspender temporariamente e consultar imediatamente (pág. 47).

Farmacovigilância

  • Notificação de suspeitas de reações adversas e falhas terapêuticas é obrigatória (art. 60 da Lei n.º 1, de 10 de janeiro de 2001) (pág. 50).
  • É feita com os formulários do MINSA ou o portal Noti-FACEDRA (www.notificacentroamerica.net); os pacientes também podem notificar (pág. 50).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Reações do nifurtimox relacionadas com a dose

Com nifurtimox foram relatados confusão, ataxia, irritabilidade, psicose, cefaleia, tremores, parestesia, mialgias e artralgias, entre outros; relacionam-se com a dose as convulsões (reduzir a dose), a neurite periférica (pode exigir descontinuação) e a erupção cutânea ou outras reações alérgicas (pág. 48).

Vigilância

Resumo

Notificação

  • Notificação obrigatória e individual, por meio do formulário de notificação e investigação, com fluxo local → regional → central e realimentação aos responsáveis (págs. 54-55).
  • Os laboratórios notificam mensalmente os resultados reagentes e não reagentes (págs. 54-55).

Triagem de doadores

  • Triagem obrigatória por ELISA de toda doação de sangue, órgãos e hemoderivados desde 1999 (1.ª ed., págs. 30 e 80-81; Resolução n.º 49 de 23-06-1999).
  • A unidade reagente é descartada, confirmada no LCRSP-ICGES e notificada à Epidemiologia (2.ª ed., págs. 33-34 e 54).

Inquéritos sorológicos

  • Em áreas de risco realizam-se inquéritos em pré-escolares e escolares a cada 3-5 anos, com amostras ao Laboratório Regional, LCRSP ou ICGES (pág. 55).
Fonte: Guia para a Abordagem Integral da Doença de Chagas na República do Panamá, 2.ª edição (MINSA/CSS/OPS-OMS, 2024; Resolução nº 0971 de 20-05-2024)

Vigilância entomológica e controle vetorial

O controle vetorial e a vigilância entomológica fazem parte do programa nacional; o vetor principal é Rhodnius pallescens, com comportamento domiciliado, e também foram identificados Triatoma dimidiata, Panstrongylus geniculatus, Eratyrus cuspidatus e Triatoma dispar (1.ª ed., págs. 16-18; 2.ª ed., págs. 13-17 e 62-72).

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