Chagas em Colômbia

Guia clínico de atenção ao paciente com doença de Chagas baseado nos protocolos vigentes para diagnóstico, tratamento e acompanhamento.

Protocolo vigenteMinistério da Saúde e Proteção Social da Colômbia (MinSalud), com OPS/OMS
Revisão2010 (Guía clínica); diagnóstico y vigilancia actualizados por el INS (protocolo v04 2022 y lineamiento PDR 2025)

Diagnóstico

Resumo

Fase aguda

  • Confirmar com métodos parasitológicos diretos: exame a fresco e, após 30 dias de sintomas, métodos de concentração (Guia 2010, pp. 28-29).
  • Documentar a soroconversão aos 21 dias com sorologia simultânea (Guia 2010, p. 34).
  • Não pedir IgM: não está disponível no país (Guia 2010, p. 34).

Fase crônica

  • Confirmar com duas provas sorológicas de princípio diferente (IgG anti-T. cruzi); a ELISA é a prova inicial (Guia 2010, pp. 33 e 36).
  • Considerar positivo um ELISA ≥2 vezes o ponto de corte ou uma IFI ≥1:32, segundo a Guia 2010 (p. 33).
  • Fazer uma IFI ou um Immunoblot como terceira prova se as duas anteriores forem discordantes (protocolo v04 2022, p. 11).

Testes de diagnóstico rápido

  • Novidade 2025: em ambientes sem ELISA, usar PDR com sensibilidade e especificidade verificadas ≥95 % (lineamento PDR 2025, pp. 7, 13-14 e 16).
  • Confirmar com uma segunda prova (PDR ou ELISA) e uma terceira se houver discordância (pp. 13-14 e 16).
  • Não usá-los em suspeita de agudo, imunossupressão, menores de 10 meses nem em bancos de sangue (p. 14).

Reativação e imunossupressão

  • Buscar o parasita com métodos diretos no sangue, LCR ou outros fluidos, com ou sem PCR (Guia 2010, p. 36).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Algoritmo diagnóstico e laboratório

Na fase crônica, o algoritmo vigente é ELISA de antígenos totais (sensibilidade ≥98 %) mais ELISA/ChLIA de antígenos recombinantes ou peptídeos sintéticos (especificidade ≥98 %) (INS 2017, pp. 20 e 24).

Os valores indeterminados —10-20 % acima e abaixo do ponto de corte— são encaminhados a um laboratório de referência (Guia 2010, p. 33).

Na fase aguda os métodos diretos são repetidos várias vezes ao dia durante pelo menos uma semana; na fase crônica não estão indicados, salvo suspeita de reativação. Os resultados são respondidos em 6 dias úteis (Guia 2010, pp. 36-39; INS 2017, pp. 19-25).

Os kits devem seguir as recomendações da INVIMA e do MinSalud (Guia 2010, pp. 38-39).

Tratamento

Resumo

Quem tratar

  • Tratar todo caso agudo: é uma urgência médica (Guia 2010, p. 40).
  • Tratar a infecção congênita (p. 40).
  • Tratar os menores de 18 anos com infecção crônica, em qualquer forma clínica (p. 40).
  • Tratar a reativação por imunossupressão e a exposição acidental (p. 40).
  • Em adultos crônicos a decisão é individual; o benefício é maior com menos de 15 anos de exposição e sem dano cardíaco grave (p. 41).

Esquemas e doses

  • Benznidazol: 5-10 mg/kg/dia em 2-3 tomadas durante 60 dias; em adultos costuma bastar 5 mg/kg/dia (p. 42).
  • Em crianças toleram-se doses próximas de 10 mg/kg/dia; máximo 300 mg/dia (p. 42).
  • Nifurtimox: adultos 5-8 mg/kg/dia e crianças 10 mg/kg/dia, durante 60 dias em 2-3 tomadas (p. 44).
  • Início progressivo: ¼ da dose no primeiro dia, ½ nos dias 2-3 e dose plena a partir do quarto (p. 44).

Contraindicações e precauções

  • Não prescrever durante a gravidez: o tratamento etiológico é contraindicado (p. 45).
  • Contraindicar em transtornos neurológicos, hepáticos ou renais graves (p. 45).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Casos especiais

  • Congênito: 5 mg/kg/dia progressivos durante 6 dias até 10 mg/kg/dia por 60 dias.
  • Reativação: 60 dias, extensíveis a 90.
  • Acidente laboral: benznidazol 7-10 mg/kg durante 10 dias (30 dias se houver suspeita de alta carga parasitária); sem profilaxia em risco mínimo (p. 46).

Acompanhamento

Resumo

Controle durante o tratamento

  • Fazer controle médico semanal (Guia 2010, p. 42).
  • Solicitar laboratório no início, aos 20 dias e no final: hemograma com plaquetas, TGO, TGP, nitrogênio ureico e creatinina (p. 42).

Critério de cura

  • Confirmar com negativação sorológica em duas ou mais reações convencionais consecutivas (IFI ≥1:16) (p. 47).
  • Repetir os controles de forma semestral ou anual (p. 47).
  • Esperar a negativação em 1 ano (congênito), 3-5 anos (agudo), 5-10 anos (crônico recente) e mais de 20 anos (infecção de longa data) (p. 47).

Avaliação cardiológica

  • Fazer eletrocardiograma e radiografia de tórax iniciais para todo soropositivo (Guia 2010, pp. 68-69).
  • Na forma indeterminada, avaliar a cada ano com eletrocardiograma e radiografia; se o ECG for anormal, encaminhar à clínica médica ou à cardiologia (pp. 68-69).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Cardiopatia crônica

  • O ecocardiograma identifica a disfunção sistólica, principal fator prognóstico.
  • Tratar a disfunção ventricular com IECA e betabloqueadores; acrescentar espironolactona em sintomáticos.
  • Usar amiodarona para as arritmias, marcapasso ou CDI conforme indicação e anticoagulação individualizada (Guia 2010, pp. 60-67).

Forma digestiva

O megaesôfago é manejado com medidas higiênico-dietéticas e relaxantes do esfíncter (nifedipina 10 mg sublingual 45 minutos antes de comer) como tratamento paliativo (pp. 67-68).

Gravidez e Chagas congênito

Resumo

Triagem da gestante

  • Incorporar a sorologia aos exames de rotina do pré-natal em zonas de risco (Guia 2010, pp. 71 e 73).
  • Avaliar toda gestante soropositiva com eletrocardiograma e ecocardiograma com Doppler desde os primeiros controles, pelo risco de descompensação (p. 71).

Tratamento

  • Não tratar durante a gravidez: o tratamento etiológico é contraindicado (pp. 45 e 73).
  • Tratar a mãe após a amamentação (p. 73).

Recém-nascido

  • Buscar tripomastigotas em sangue de cordão no parto (Guia 2010, p. 72).
  • Com o protocolo vigente do INS: parasitologia ao nascer, repetir aos 3 ou 6 meses e sorologia aos 10 meses (v04 2022, p. 10).
  • Ter em conta que a Guia 2010 oscila entre os 6 e 9 meses (p. 35) e os 6 a 12 meses (p. 72).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Forma congênita

  • A transmissão é possível em qualquer etapa da infecção materna.
  • 60-90 % dos casos são assintomáticos.
  • A hepatomegalia —e às vezes a esplenomegalia— é o sinal mais importante; costuma desaparecer entre os 6-12 meses sem tratamento (Guia 2010, pp. 20-21).

Confirmação e tratamento do recém-nascido

  • Se os anticorpos IgG persistirem aos 6-12 meses, confirmar o Chagas congênito e indicar tratamento imediato (Guia 2010, pp. 72-73).
  • Ampliar o estudo ao núcleo familiar (protocolo v04 2022, p. 10).

Pediatria

Resumo

Quem tratar

  • Tratar todo menor de 18 anos com infecção crônica, independentemente da forma clínica (Guia 2010, p. 40).
  • As crianças toleram melhor o medicamento: benznidazol até 10 mg/kg/dia e nifurtimox 10 mg/kg/dia durante 60 dias (pp. 42 e 44).

Busca ativa

  • Priorizar a detecção de crianças soropositivas com campanhas de sorologia em menores de 15 anos (pp. 25, 49 e 51-52).
  • Em uma série de 20 anos, a eficácia foi baixa em tratados após os 3 anos de idade (Guia 2010, p. 48).

Recém-nascido

  • Com clínica compatível e provas diretas negativas, usar PCR antes dos 6 meses (p. 31).
  • Repetir a sorologia IgG aos 10 meses, conforme o protocolo vigente do INS (v04 2022, p. 10).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Esquema progressivo do lactente

5 mg/kg/dia com aumento durante 6 dias até 10 mg/kg/dia por 60 dias, administrado após as refeições, com o mesmo seguimento clínico e laboratorial do paciente crônico (Guia 2010, p. 45).

Reações adversas

Resumo

A margem terapêutica é estreita: esperam-se reações adversas em todos os pacientes, sobretudo em adultos (Guia 2010, p. 75).

Dermatite

  • Dermatite leve, cerca de 20 %, entre o 5º e o 10º dia: continuar o tratamento (pp. 42-43).
  • Tratar a dermatite moderada (menos de 5 %) com suspensão temporária, anti-histamínicos ou prednisolona 20 mg/dia e reintrodução conforme a tolerância (pp. 42-43).
  • Suspender e hospitalizar a dermatite grave (menos de 1 %) (pp. 42-43).

Depressão medular

  • Vigiar a neutropenia entre o 20º e o 30º dia (menos de 1 %) com leucogramas (p. 43).
  • Advertir o paciente sobre febre ou odinofagia pelo risco de agranulocitose (p. 43).

Neuropatia periférica

  • Risco alto com 8 mg/kg/dia por mais de 30 dias e dose total maior de 15 g (p. 44).
  • Pode aparecer até uma semana depois de terminar e deixar parestesias (p. 44).

Outras reações

  • Suspender o tratamento se aparecer ageusia (0,5 % dos casos) (p. 44).
  • O nifurtimox produz menos efeitos dermatológicos, mas pior tolerância digestiva e transtornos psíquicos (p. 44).

Farmacovigilância

  • Notificar as reações adversas conforme as disposições da INVIMA e do MinSalud; a notificação é obrigatória para os prestadores (Guia 2010, pp. 45 e 75).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Manejo sintomático

Prurido, desidratação e descamação: pomadas corticoideas e loções hidratantes duas vezes ao dia (Guia 2010, p. 43).

Vigilância

Resumo

Notificação

  • Notificar o Chagas no SIVIGILA (Guia 2010, p. 73).
  • Notificar de forma imediata e individual todo caso agudo provável ou confirmado (protocolo v04 2022, pp. 12 e 15).
  • Notificar semanalmente os crônicos apenas em populações priorizadas: gestantes, menores de 18 anos, população indígena e mulheres em idade fértil (15-49 anos) (p. 15).

Definições operacionais

  • Agudo provável ou confirmado: inclui transmissão congênita e surtos por transmissão oral (protocolo v04 2022, pp. 10-11).
  • Crônico provável: uma ELISA/CLIA reagente; crônico confirmado: duas provas de princípio antigênico distinto (pp. 10-11).
  • Em caso de discordância, fazer IFI ou Immunoblot (pp. 10-11).

Metas e indicadores

  • Fazer prova parasitológica direta em 100 % dos casos agudos (protocolo v04 2022, pp. 22-23).
  • Fazer estudo de foco em 100 % dos surtos e casos isolados (pp. 22-23).
  • Cumprir a meta de 100 % para o indicador de letalidade (pp. 22-23).

Laboratório

  • Repetir as provas parasitológicas diretas de forma seriada, no mínimo 3 vezes, na fase aguda (v04 2022, p. 20).
  • Participar das avaliações externas de desempenho anuais com a rede (LNR/INS, LSPD e laboratórios locais) (INS 2017, pp. 32-33).
Fonte: Guia de Atenção Clínica da Doença de Chagas (MinProteção Social/OPS, 2010) e documentos vigentes do INS (protocolo v04 2022 e lineamento PDR 2025)

Detecção precoce

Protocolo de descarte de T. cruzi em toda febre prolongada de zona endêmica; busca de T. cruzi na leitura rotineira da gota espessa onde a malária coexiste; detecção ativa de crianças soropositivas e triagem de gestantes (Guia 2010, pp. 24-26 e 74).

Não encontrou o que procurava?

Consulte seu caso diretamente com o comitê médico da Rede.

💬 Dúvidas clínicas frequentes

Consulte a lista de perguntas frequentes da Rede, com respostas breves elaboradas pelo comitê clínico.

Ir ao FAQ