Chagas em Brasil

Guia clínico de atenção ao paciente com doença de Chagas baseado nos protocolos vigentes para diagnóstico, tratamento e acompanhamento.

Protocolo vigenteMinistério da Saúde (CONITEC)
Revisão2018 (PCDT, Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Diagnóstico

Resumo

Quem testar

  • Pessoas que residiram ou residem em área com triatomíneo ou reservatórios infectados, sobretudo em moradia de taipa, sapê, pau-a-pique ou madeira: testar.
  • Pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemocomponentes antes de 1992: testar.
  • Familiares ou conviventes de pessoa com diagnóstico de Chagas, em especial filhos de mãe infectada: testar.
  • Gestantes com fator de risco: testar no pré-natal, idealmente junto a HIV, sífilis e hepatite B.
  • Pessoas sem fator de risco: não rastrear — a prevalência é baixa e o número de testes necessários para detectar um caso é alto.

Fase aguda

  • Pesquisa parasitológica direta (padrão-ouro): exame a fresco e método de concentração (Strout, micro-hematócrito ou creme leucocitário), simultaneamente.
  • Primeira coleta negativa com suspeita persistente: repetir em 12 a 24 horas.
  • Hemocultura e xenodiagnóstico: não confirmam a fase aguda.
  • Notificação: compulsória em até 24 horas (SINAN).

Fase crônica

  • Diagnóstico sorológico: dois testes de princípios distintos ou preparações antigênicas diferentes (ELISA, IFI, HAI, WB ou CLIA), na mesma amostra.
  • Ambos reagentes: infecção crônica confirmada.
  • Discordantes: terceiro teste em nova amostra; se a discordância persistir, encaminhar a serviço de referência.
  • Ambos não reagentes: descarta a infecção.
  • PCR: não usar na fase crônica, pela baixa sensibilidade.
  • Teste rápido: não reagente descarta a infecção quando usado como teste único; reagente exige confirmação sorológica.

Recém-nascido

  • RN de mãe infectada: pesquisa parasitológica direta nos primeiros dias de vida, com mais de uma amostra.
  • Pesquisa negativa: sorologia após os 9 meses; antes disso, anticorpos maternos podem dar resultado reagente.
  • Duas reações reagentes: transmissão congênita confirmada.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Algoritmo diagnóstico

Passo 1 — Quando suspeitar

Antecedente epidemiológico (área com triatomíneo ou reservatórios infectados; casa de taipa, sapê, pau-a-pique ou madeira; transfusão de sangue antes de 1992; convivente ou familiar com Chagas; filho de mãe infectada) ou clínica compatível.

Determinar a fase provável — ela define o exame a pedir:

Fase aguda
Parasitemia alta
Gestante / recém-nascido
Risco de transmissão vertical
Fase crônica
Parasitemia indetectável
Passo 2A — Fase aguda: pesquisa parasitológica direta

Padrão-ouro. Realizar exame a fresco e método de concentração simultaneamente:

Fresco → Strout → Micro-hematócrito → Creme leucocitário

POSITIVO → fase aguda confirmada: tratar imediatamente + notificar em 24 h (SINAN)
NEGATIVO com suspeita persistente → nova coleta em 12–24 h; repetir até confirmação, desaparecimento dos sintomas ou confirmação de outra hipótese
Suspeita de miopericardite → ecocardiograma · suspeita de meningoencefalite → LCR
Hemocultura e xenodiagnóstico não confirmam fase aguda (podem ser positivos na crônica). A transmissão oral costuma ser mais grave: rash, hemorragia digestiva, icterícia, aumento de aminotransferases.
Passo 2B — Fase crônica: sorologia

Dois testes sorológicos de princípios distintos ou com diferentes preparações antigênicas, na mesma amostra:

ELISA IFI HAI WB CLIA

Podem ser dois ELISA, desde que com preparações antigênicas diferentes.

Ambos reagentes → Infecção crônica confirmada → avaliar forma clínica e indicação de tratamento
Discordantes → terceiro teste em nova amostra (ELISA, IFI, HAI, WB ou CLIA)
Ambos não reagentes → descarta a infecção
O PCR não deve ser usado na fase crônica (baixa sensibilidade diagnóstica). Teste rápido: não reagente descarta quando usado como teste único; reagente exige confirmação sorológica (muitos falso-reagentes).
Passo 3 — Avaliação clínica e classificação da forma

Anamnese + exame físico + ECG em todos os casos. Ecocardiograma se ECG alterado ou sintomas cardíacos.

Assintomático e sem alterações → Forma crônica indeterminada
Alteração de ECG, palpitações, síncope, dispneia → ecocardiograma, Holter, teste de esforço → Cardiopatia chagásica (inicial ou avançada)
Disfagia, regurgitação, constipação → radiografia contrastada ou endoscopia (excluir neoplasia) → Forma digestiva

A forma clínica define a conduta: tratar, decisão compartilhada ou não tratar (ver Tratamento).

Fase aguda: exames e manejo

Na fase aguda a parasitemia é alta e a pesquisa direta identifica o parasito no sangue periférico.

  • Exame a fresco: rápido e mais sensível que o esfregaço; coletar até 30 dias do início dos sintomas.
  • Métodos de concentração (Strout, micro-hematócrito ou creme leucocitário): realizar simultaneamente ao exame a fresco, mesmo quando ele é negativo.
  • Suspeita de miopericardite: ecocardiograma. Suspeita de meningoencefalite: exame do líquor.

Na transmissão oral os quadros são mais graves: rash cutâneo, hemorragia digestiva, icterícia e insuficiência cardíaca. Em surtos, investigar os contatos domiciliares.

Fase crônica: interpretação das provas

  • Podem ser usados dois ELISA, desde que com preparações antigênicas diferentes.
  • WB e CLIA não são necessários quando há outros dois testes disponíveis.

Tratamento

Resumo

Fármacos

Benznidazol é a primeira linha em todas as fases e formas clínicas. Nifurtimox é a segunda linha, reservado à intolerância ou indisponibilidade do benznidazol, e não é usado em adultos na rotina.

Quem tratar

  • Crianças e adolescentes com forma indeterminada ou digestiva: tratar.
  • Adultos com menos de 50 anos, forma indeterminada ou digestiva: tratar.
  • Adultos com 50 anos ou mais: não tratar de rotina.
  • Nessa faixa etária, considerar decisão compartilhada, sobretudo em infectados na vida adulta, sem comorbidades e com maior expectativa de vida.
  • Cardiopatia inicial (alteração no ECG, fração de ejeção > 40 %, sem insuficiência cardíaca e sem arritmias graves): tratar ou não tratar, em decisão compartilhada.
  • Cardiopatia avançada: não tratar.
  • Forma digestiva: o antiparasitário não altera a evolução; aplicar as recomendações da forma indeterminada e tratar megaesôfago e megacólon com medidas próprias.

Quando o tratamento é sempre indicado

  • Fase aguda, em todas as faixas etárias: tratar imediatamente; na suspeita persistente com caso assintomático, considerar tratamento empírico.
  • Infecção congênita e crianças e adolescentes com infecção crônica: tratar.
  • Imunossuprimidos (HIV sem reativação, transplantados): tratar, preferencialmente com benznidazol.
  • Mulheres em idade fértil: tratar fora da gestação, com contracepção durante o tratamento, para reduzir a transmissão vertical.

Esquemas e doses

  • Benznidazol (adulto): 5 mg/kg/dia, em 1 a 3 tomadas, por 60 dias.
  • Alternativa acima de 60 kg: 300 mg/dia pelo número de dias equivalente ao peso, máximo 80 dias.
  • Nifurtimox (adulto): 10 mg/kg/dia, em 3 tomadas, por 60 dias.
  • Crianças e adolescentes: ver a seção Pediatria.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Benznidazol: apresentações e cuidados

Primeira linha em todas as fases. Comprimidos de 12,5 mg (pediátrico) e 100 mg (adulto).

  • Adulto: 5 mg/kg/dia, em 1 a 3 tomadas, por 60 dias.
  • Alternativa acima de 60 kg: 300 mg/dia, em 2 a 3 tomadas.
  • Nesse esquema, um dia de tratamento por quilo de peso, máximo 80 dias (70 kg → 70 dias).
  • Pediátrico: 5 a 10 mg/kg/dia, em 2 tomadas, por 60 dias.

A formulação de 12,5 mg é solúvel em água, suco de laranja ou leite. Solicitar hemograma três semanas após o início, pelo risco de neutropenia.

Nifurtimox: uso restrito

Segunda linha, em comprimidos de 120 mg.

  • Adulto: 10 mg/kg/dia, em 3 tomadas, por 60 dias.
  • Pediátrico: 15 mg/kg/dia, em 3 tomadas, por 60 dias.

Não é recomendado na rotina em adultos: menor disponibilidade no país e mais eventos adversos. Reservar a crianças, adolescentes e adultos jovens com infecção recente e intolerância ao benznidazol. Dispensado apenas em centros de referência, sob demanda.

Megaesôfago e megacólon

O tratamento antiparasitário não modifica a evolução das formas digestivas; o manejo é sintomático e segue, em linhas gerais, o das formas não chagásicas.

Megaesôfago: pequenos volumes, alimentos pastosos, evitar irritantes e não comer antes de deitar. Relaxar o esfíncter esofágico inferior com nifedipina 10 mg sublingual 30 minutos antes das refeições ou dinitrato de isossorbida 2,5 a 5 mg sublingual 15 minutos antes. O efeito é sintomático; suspender em caso de eventos adversos. A nifedipina é contraindicada em cardiopatia grave, pelo risco de hipotensão e retenção hidrossalina. Casos refratários: toxina botulínica, dilatação por balão ou cirurgia.

Megacólon: dieta rica em fibras, líquidos abundantes, evitar alimentos e medicamentos constipantes, usar laxativos emolientes ou osmóticos e supositórios de glicerol; cirurgia nos casos indicados.

Sempre excluir neoplasia e causas não chagásicas: acalasia idiopática, amiloidose, sarcoidose, refluxo e tumores; investigar com radiografia contrastada e endoscopia.

Cardiopatia chagásica: insuficiência cardíaca e arritmias

As alterações do ECG são o primeiro indicativo de acometimento cardíaco e permitem acompanhar a deterioração da função cardíaca.

Insuficiência cardíaca: tratar como a de outras etiologias — IECA ou ARA II, diurético e espironolactona; betabloqueador com cautela, porque pode acentuar bradicardia ou bloqueios de condução. Iniciar em paciente compensado, em dose baixa, e titular até a dose máxima tolerada, geralmente menor que em outras cardiopatias.

Arritmias: principal causa de morte; a morte súbita responde por 55 a 65 % dos óbitos. Amiodarona 200 mg/dia é o fármaco de escolha, com atenção a alterações tireoidianas, prolongamento do QT, torsades de pointes e fibrose pulmonar.

Avaliar encaminhamento para marca-passo, cardiodesfibrilador implantável ou transplante cardíaco, em serviço especializado.

Acompanhamento

Resumo

Onde acompanhar

  • APS: fase aguda não grave, forma crônica indeterminada, formas cardíaca, digestiva ou cardiodigestiva estáveis e gestante sem comorbidades.
  • Serviço especializado: casos graves ou instáveis, gestante com cardiopatia ou fase aguda, HIV, transplantados e candidatos a nifurtimox.

Controle durante o tratamento

  • Avaliação clínica periódica, com atenção especial aos eventos adversos.
  • Benznidazol: hemograma três semanas após o início, pelo risco de neutropenia.
  • Nifurtimox: manejo obrigatório em serviço especializado, com avaliação periódica.
  • Eventos adversos graves ou progressão da doença: encaminhar a serviço especializado.

Depois do tratamento

  • Não há controle sorológico de rotina nem retratamento após um curso completo.
  • Manter seguimento longitudinal com ECG periódico, mesmo sem tratamento etiológico; a negativação sorológica é lenta e não é critério de cura.
  • Em uso de amiodarona: consultas a cada 3 meses no primeiro ano e a cada 6 meses depois.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Critérios de encaminhamento ao serviço especializado

  • Fase aguda grave: suspeita de encefalite ou miocardite.
  • Gestante com fase aguda ou com cardiopatia.
  • Cardiopatia com arritmias graves, insuficiência cardíaca, candidatura a marca-passo ou cardiodesfibrilador, ou risco tromboembólico.
  • Acometimento digestivo candidato a procedimento especializado: toxina botulínica, dilatação ou cirurgia.
  • Coinfecção por HIV, transplantados e candidatos a nifurtimox.

Gravidez e Chagas congênito

Resumo

Gestante com doença de Chagas crônica

  • Não tratar na gestação: o risco de transmissão congênita é baixo e não há benefício demonstrado do antiparasitário nesse momento.
  • Sem cardiopatia e sem comorbidades: acompanhar na APS.

Gestante com fase aguda

  • Aguda grave (miocardite ou meningoencefalite): tratar independentemente da idade gestacional; preferir a partir do 2.º trimestre, quando o risco de malformações é menor.
  • Aguda não grave no 1.º trimestre: aguardar o 2.º trimestre, com decisão informada e compartilhada.
  • Medicamento indicado: benznidazol.
  • Gestante com fase aguda: acompanhamento em serviço especializado.

Prevenção da transmissão vertical

  • Mulheres em idade fértil: tratar fora da gestação, com contracepção durante o tratamento, para reduzir a transmissão congênita.

Recém-nascido

  • Pesquisa parasitológica direta nos primeiros dias de vida, com mais de uma amostra.
  • Pesquisa negativa: sorologia após os 9 meses. Duas reações reagentes confirmam a transmissão congênita e o tratamento precoce tem alta taxa de cura.
  • Notificar a transmissão materno-fetal identificada até os 2 anos de idade.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Fluxo da gestante e do recém-nascido

Gestante

Rastrear no pré-natal conforme o risco clínico-epidemiológico (idealmente junto a HIV, sífilis e hepatite B). Em gestantes de baixo risco a testagem de rotina não é recomendada.

Não reagente → descarta (o teste rápido tem alta sensibilidade)
Reagente → confirmar com dois testes sorológicos de métodos diferentes
Confirmado e sem cardiopatia nem comorbidades → forma crônica: NÃO tratar na gestação · acompanhar na APS
Com cardiopatia → encaminhar a serviço especializado
O tratamento antiparasitário na forma crônica fica para fora da gestação: reduz a transmissão vertical. Durante o tratamento, orientar contracepção.
Exceção: fase aguda na gestação
Aguda grave (miocardite ou meningoencefalite) → tratar independentemente da idade gestacional · preferir a partir do 2.º trimestre
Aguda não grave no 1.º trimestre → aguardar o 2.º trimestre; não tratar é justificável, com decisão informada e compartilhada
Benznidazol é o medicamento indicado. Gestante com fase aguda → acompanhamento em serviço especializado.
Recém-nascido de mãe infectada

Pesquisa parasitológica direta nos primeiros dias de vida — colher mais de uma amostra (podem ocorrer falso-negativos).

Positivo → infecção congênita confirmada → tratar
Negativo → sorologia após os 9 meses de vida
Duas reações reagentes → transmissão congênita confirmada → tratar
Não reagente → não infectado: alta do seguimento
Antes dos 9 meses a sorologia não é válida: anticorpos maternos podem dar resultado reagente. Se não houver seguimento garantido, pode-se testar entre 6 e 9 meses, assumindo maior taxa de falso-reagentes. PCR e SAPA não são métodos de rotina.

Notificar a transmissão materno-fetal identificada até os 2 anos de idade.

Transmissão congênita: por que testar após os 9 meses

Anticorpos maternos podem dar falso-reagente no período neonatal; por isso a sorologia só é interpretável após os 9 meses. Uma titulação alta que persiste é forte indicativo de transmissão congênita.

  • Crianças não testadas aos 9 meses: testar depois desse período — a negativação sorológica supera 95 %.
  • Quando o seguimento é difícil, pode-se testar entre 6 e 9 meses, assumindo maior taxa de falso-reagentes.
  • PCR e SAPA não são métodos de rotina para o diagnóstico congênito.

Pediatria

Resumo

Indicação

Tratar todas as crianças e adolescentes com infecção crônica indeterminada ou digestiva: a negativação sorológica é mais provável, os eventos adversos são menos frequentes e intensos, e o tratamento precoce reduz a transmissão congênita futura.

Esquemas e doses

  • Benznidazol: 5 a 10 mg/kg/dia, em 2 tomadas, por 60 dias.
  • Apresentação: comprimidos de 12,5 mg, solúveis em água, suco de laranja ou leite.
  • 2,5 a 5 kg: 1 comprimido (12,5 mg) 2×/dia.
  • 5 a 10 kg: 2 comprimidos (25 mg) 2×/dia.
  • 10 a 15 kg: 3 comprimidos (37,5 mg) 3×/dia.

Infecção congênita

  • Tratar assim que confirmada: a negativação sorológica supera 95 % e o tratamento precoce é bem tolerado.
  • Crianças não testadas aos 9 meses devem ser testadas após esse período.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Benznidazol pediátrico: segurança

Mais de 50 % dos pacientes apresenta eventos adversos, mas as crianças toleram melhor que os adultos e a suspensão do tratamento por eventos adversos é pouco frequente.

A dose é calculada por quilo: os esquemas por faixa de peso são orientações práticas e não substituem o cálculo.

Reações adversas

Resumo

Os eventos adversos são frequentes e a principal causa de interrupção do tratamento; orientar antes de iniciar e manejar os sintomas evita boa parte das suspensões.

Benznidazol

Cerca de 53 % dos pacientes apresenta algum evento adverso.

  • Dermatite e rash cutâneo em 30 a 44 %, geralmente sem necessidade de interromper o tratamento.
  • Alopecia em 0,9 %.
  • Intolerância gastrointestinal em 13,3 %.
  • Parestesias em 10,3 %, com possível impacto funcional e persistência por meses.
  • Artralgias em 8,1 %.
  • Neutropenia: solicitar hemograma três semanas após o início.

Nifurtimox

Cerca de 85 % dos pacientes apresenta eventos adversos.

  • Intolerância gastrointestinal em 61 %.
  • Artralgias em 33 %.
  • Acometimento dermatológico em 15 %.

Manejo

  • Eventos leves ou moderados: tratamento sintomático sem suspender o antiparasitário.
  • Eventos graves ou parestesias com impacto funcional: suspender e reavaliar reintrodução ou troca.
  • Nifurtimox: manejo em serviço especializado.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Manejo dos eventos graves

Parestesias podem corresponder a polineuropatia periférica, com impacto funcional e persistência por meses após a interrupção; nesses casos, suspender o antiparasitário e reavaliar.

Neutropenia: o hemograma deve ser solicitado três semanas após o início; diante de leucopenia ou neutropenia, suspender e reavaliar.

Hipersensibilidade cutânea grave, como a síndrome de Stevens-Johnson, é rara, mas exige suspensão imediata e avaliação especializada.

Nifurtimox: atenção a eventos neuropsiquiátricos — irritabilidade, insônia e alterações de humor.

Vigilância

Resumo

Notificação

  • Casos suspeitos na fase aguda: notificação compulsória em até 24 horas (Portaria SVS/MS nº 204, de 17 de fevereiro de 2016).
  • Transmissão materno-fetal: notificar os casos identificados até os 2 anos de idade.
  • Casos crônicos: considerar fortemente a notificação, para dimensionar a carga da doença.

Ações de controle no local provável de infecção

  • Transmissão vetorial: vigilância ambiental, investigação entomológica e de reservatórios, sorologia dos moradores e educação em saúde.
  • Transmissão oral: inspeção sanitária para identificar o alimento contaminado.
  • Transmissão vertical: quando a criança é o primeiro caso, investigar a mãe e os familiares.

Rastreamento

  • Rastrear pessoas com fatores de risco clínico-epidemiológico (ver detalhe); não rastrear sem fatores de risco.
  • Gestantes: rastrear as de alto risco; testagem de rotina não é recomendada nas de baixo risco.
  • Risco de reativação por imunossupressão: rastrear em qualquer idade.
Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Chagas. Ministério da Saúde, 2018 (Portaria SCTIE/MS nº 57/2018)

Fatores de risco para rastreamento

O rastreamento identifica pessoas assintomáticas ou com sintomas inespecíficos expostas a T. cruzi.

  • Haber residido na infância, ou residir, em área com vetor transmissor ou reservatórios animais (silvestres ou domésticos) infectados por T. cruzi.
  • Haber residido ou residir em moradia de taipa, sapê, pau-a-pique ou madeira, com possível convivência com o vetor.
  • Residir ou ser procedente de área com transmissão ativa ou antecedente epidemiológico sugestivo de transmissão passada.
  • Haber recebido transfusão de sangue ou hemocomponentes antes de 1992, quando os testes de triagem foram incorporados aos serviços de hemoterapia.
  • Ter familiares ou conviventes com diagnóstico de Chagas — em especial ser filho ou filha de mãe com infecção comprovada.

Gestantes sem sorologia prévia e com fatores de risco devem ser rastreadas; mulheres em idade fértil com sorologia negativa prévia não precisam repetir o teste, salvo forte suspeita de infecção desde a última testagem.

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